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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Vale do Jequitinhonha - um estudo poético

São 52 cidades perdidas no sertão mineiro, 
Esse imenso latifúndio. 

Na extremidade nordeste do Estado de Minas Gerais 
(onde a miséria e o convívio 
com os mortos é uma paisagem 
mais árida que a terra e o 
estigma ancestral dos 
retirantes) 
(onde a noite encontra 
os homens insepultos no cansaço 
das glebas, vertendo fome das veias 
agrárias entrecortadas de silêncios 
lacaios) 

Vale onde vale 
quem tem 
e um rio corre manso, dando nome 
à terra, 
rio que o homem acompanha com os olhos vazios 
de solidão 
e a alma doente de infelizes 
sem olhos para o dia

Autor: Wesley Pioest

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Os versos da nossa Lira

Os versos da nossa Lira
(Tadeu Martins)

Com barro Deus fez o homem
À sua imagem e semelhança
Com barro ELA faz arte
Desde os tempos de criança
ELA retrata a vida do povo
Em artesanato, canto e dança

ELA não foi encontrada
Nas redes de um pescador
Mas se parece com a Santa,
Em coragem, pureza e cor
Na luta para colocar peixes
Na mesa do trabalhador

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Jequitinhonhês - o dialeto do Vale

Acima do paralelo 18
Do nosso globo terrestre
Fica uma região de Minas
Uma terra bem campestre
Lá conheço um político
Que quis dar uma de mestre.

Na cidade de Itaobim
Bem no nordeste mineiro
Foi que esse caso se deu
Num esforço derradeiro
É sobre as Ilhas Malvinas
Essa guerra do estrangeiro.

Num discurso do político
Ao assunto ele refere
Tinha proposta de paz
Pra Leopoldo Galtieri
Pois o acordo tava mais lento
Do que veio de beribéri.

“Eu proponho ao General
Acabar com essa zona
Manda o exército voltar
Dá pra ele uma carona
E como a guerra ta no mar
Entregue logo o mar-à-dona”.

“Ou então o senhor e a Margareth
Dá um chega aqui em Minas
Ela representa os ingleses
E o senhor as argentinas
E nós muda o nome das ilhas
Pra Malk-land ou Falk-vinas”.

“E olhe que o encontro com dona Tatcher
É uma coisa que adianta
Pois Margareth é sensual
Com vestido ou com manta
Pois ela entra no Parlamento
E todo membro se levanta”

“E para terminar
Veja bem este enfoque
Põe um som tocando tango
E no outro deixa roque
Pede ao povo das Malvinas
Escolher pelo seu toque”.

“Rogo, parem com a guerra
Pela Santa Catarina
Pois todo dia em meu buteco
Tem a maior quebrantina
Das batatinhas inglesas
Com as maçãs argentinas"

Urubu não chupa cana
Língua de sogra não tem peçonha
Cantador pra ter coragem
Não precisa ter vergonha
Vou cantar a minha terra
Vale do Jequitinhonha.

Nossa língua é diferente
Quando eu falo você nota
Resfriado é difruço
Nome de rã é caçota
Quilo e meio pra nós é prato
E carro de mão é galinhota

Autor: Tadeu Martins

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O 31° FESTIVALE será realizado em Araçuaí

Neste ano a cidade de Araçuaí sediará o principal evento de cultura popular do Vale do Jequitinhonha. O XXXI Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (FESTIVALE ) será realizado entre os dias 29 de junho e 5 de Julho em Araçuaí. O evento tem tudo para ser um sucesso, pois a cidade já conta com grande quantidade de grupos e artistas populares para a realização do evento, além de ser uma das cidades de maior porte do Vale do Jequitinhonha e contar com relativa boa estrutura para sediar o FESTIVALE.

Será uma ótima alternativa para quem está de férias e resolveu não se arriscar a assistir de perto os jogos da Copa do Mundo FIFA de 2014 realizado nas principais capitais do Brasil. Para conhecer melhor um pouco da história do FESTIVALE, acesse este link

Principais pontos turísticos:
  • Feira municipal realizada aos sábados aqui.
  •  Associação dos Artesãos de Araçuaí aqui.
  • Cooperativa Dedo de Gente aqui.
  • Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos aqui.
  • Prédio da antiga estação ferroviária Bahia & Minas aqui.
  • Chapada do Lagoão aqui.
  • Encontro e travessia dos rios Araçuaí e Jequitinhonha aqui.
  • Aldeia Cinta Vermelha Jundiba aqui.
Artistas e grupos populares:
  • Coral Trovadores do Vale (link)
  • Coral Nossa Senhora do Rosário (link)
  • Coral Araras Grandes (link)
  • Coral Santa Tereza
  • Coral do Arraial dos Crioulos de Araçuaí (link)
  • Coral Meninos de Araçuaí (link)
  • Coral Bem-te-vi 
  • Grupo Vozes de Teatro (link)
  • Grupo de Teatro Ícaros do Vale (link)
  • Grupo de Percussão Conexão Afro Quigemm (link
  • Lira Marques (link)
  • Dona Zefa (link)
  • Dona Generosa 
  • Luciano Tanure (link)
  • Josino Medina (link)
  • Joana Dárc
  • Dêner Pinheiro (link)
  • Luiz Paulo Neres (link)
Realização do FESTIVALE no ano de 1984 em Araçuaí:
  • Festivale de 1984 em Araçuaí, MG - Vídeo

Realização do FESTIVALE no ano de 2006 em Araçuaí:
  • Festivale 2006, Araçuai, MG - Parte 1
  • Festivale 2006, Araçuai, MG - Parte 2
Distância aproximada aos principais centros (Km):
  • Belo Horizonte: 696 por Teófilo Otoni e 606 por Diamantina
  • São Paulo: 1.221 passando por Belo Horizonte e Teófilo Otoni
  • Rio de Janeiro: 956
  • Brasília:  1025 por Montes Claros e Salinas
  • Vitória: 778
  • Salvador: 820 
Principais rodovias que servem ao município:
  • BR-367, BR-342, LMG-676, LMG-678 e BR-116 (passa próximo ao município) 
Consulte passagens de ônibus no site da ANTT aqui. A cidade não possui aeroporto com voos regulares, mas os aeroportos com voos regulares mais próximos são os das cidades de Montes Claros, Vitória da Conquista e Ipatinga/Governador Valadares. Dependendo do local de saída, pode ser vantajoso pegar avião até Belo Horizonte e ir de ônibus ou carro para Araçuaí.  

Participem deste grande evento de manifestação popular e tenha a chance de conhecer o Vale do Jequitinhonha em todos os seus pormenores. Serão mais que bem-vindos na cidade onde nasci e cresci. Quem for lá não vai se arrepender. Página do evento no facebook aqui



sábado, 19 de abril de 2014

Sobre a política de cotas para negros no Brasil

Muito tem se debatido sobre as recentes políticas de cota para afrodescendentes (indígena também entram, mas como existem em menor número, não são objetos de discussão) no Brasil e gerado bastante polêmica entre os que podem e que os não podem beneficiados pela política. Do ponto de vista do problema, ele existe e está escancarado pelo Brasil. É só você fechar os olhos e imaginar um lugar majoritariamente (quase 100%) dominado por negros e não negros, os negros vítimas da escravidão se refugiaram principalmente em quilombos e lugares menosprezados pela elite branca da época e que hoje conhecemos como favelas enquanto que um lugar onde dificilmente você vai encontrar algum negro seria nos bairros mais de classe alta de qualquer cidade grande.
Não tem como negar que esta realidade é consequência das políticas de discriminação e segregação da elite dominante de épocas passadas que controlavam o governo e engendravam políticas restritivas que visavam sua manutenção do poder político e econômico. Aos antepassados negros foram negados os direitos a propriedade privada, educação pública e, por um longo período de tempo, a liberdade individual (leia aqui, aqui e aqui).
Uma das consequências mais perversas da escravidão foi que a diferença entre o capital humano (sentido econômico) do negro e do branco foi ampliando ao longo do tempo. Havia brancos pobres, mas estes não tiveram restrições tão severas quanto a dos negros no que diz respeito a possibilidade de ultrapassar a pobreza. Boa parte da população branca que não ascendeu socialmente dividiu os mesmos lugares frequentados que os negros, criando um grande processo de miscigenação no Brasil. Talvez essa seja a razão de incluir pessoas pardas como cotistas, seus antepassados (brancos, índios e amarelos com negro) viveram situação semelhante.
Sou contra os argumentos que citam italianos, alemães, japoneses e outros vindos aqui para o Brasil em condições ruins como argumento que desmerecem as cotas raciais. Suas condições eram ruins, mas não foram nem de perto mais restritivas do que a dos negros, basta visitarem um bairro majoritariamente de descendentes desses povos e compará-los com os habitados por maioria negra.
Posto isso, é inegável que o negro sofreu discriminação no passado e que as consequências ecoam até nosso tempo. Não é muito difícil enxergar isso quando visitamos uma periferia e um bairro de classe alta. A probabilidade de alguém que nasceu numa família negra ser pobre é muito maior do que numa família predominantemente branca. Posto isso, o problema existe e não é fruto da aleatoriedade, falta de esforço, habilidade ou sorte.
A sociedade então tem o dever de reparar os negros? As cotas estão aí para solucionar este problema? Minha resposta é não para ambas as perguntas. A primeira é impossível, quem sofreu com escravidão, teve o direito a propriedade da terra negado e sofreu com a segregação mais severa está morto e não temos como ressuscitá-los para que possam ter uma vida melhor (homens como este aqui não voltarão a vida). Foi uma página horrível na história e não temos como mudá-la. A segunda em certo ponto ajuda a resolver o problema da mobilidade social, mas não é a maneira mais efetiva e cria desequilíbrios entre os pobres cotistas e não cotistas.
Se a sociedade hoje é racista eu não sei, mas sei que exames de admissão em universidades e concursos públicos não são racistas. As pessoas fazem as provas e quem somar o maior número de pontos entra na vaga, independentemente de cor, sexualidade, religião, etc. Os exames acabam sendo reflexo da falta de oportunidade lá no início da formação da pessoa e os mais afetados são os negros pelas razões já expostas. Na época que surgiu a cota, dois colegas brancos e eu disputávamos vagas em universidades pelo PROUNI e só eu tinha o “bônus” a mais pela cor (o sistema não é só para descendentes, mas tem que ter cor semelhante aos antepassados negros), mas me via em condições praticamente iguais a eles para competir pelas vagas. Todos conseguiram uma vaga e, mesmo sem o benefício da cota, consegui entrar numa excelente instituição (me vangloriando um pouquinho, consegui a melhor nota entre os três).
Dito isto, onde está o problema que tem excluído tanta gente negra do acesso aos melhores centros de ensino do país? O problema está no ensino básico que é pouco valorizado no país, mas que é causa das grandes diferenças no conhecimento entre ricos e pobres, independentemente da cor. Como os negros estão majoritariamente na parcela pobre da população, são os mais afetados pela má qualidade no ensino. Este ciclo pernicioso permaneceu por longos tempos e as cotas surgiram como remédio para a falta de negro nos melhores centros de ensino.
Aí está o problema das cotas raciais, para resolver um problema origina-se outro, visto que também existem brancos (mesmo que em minoria) na mesma situação da maioria negra. Essa política pode ter resultados positivos no longo prazo, pois ao forçar a mobilidade social através de cotas raciais, os filhos dos negros beneficiados nascerão em melhores condições para disputar os melhores postos no mercado de trabalho. Porém, ela age perversamente ao diminuir as chances dos não cotistas na mesma condição poderem ultrapassar a pobreza. Então esta política, mesmo que bem intencionada, gera distorções e fica mais caracterizada como assistencialismo, pois não resolve o problema da falta mobilidade social de forma efetiva no Brasil. O problema existe e tem que ser combatido, mas a solução está longe de gerar concordância na sociedade e, levando para o economês, não é um ótimo de Pareto (melhor escolha entre as oportunidades possíveis).
Creio (não fiz um estudo) que um ótimo de Pareto nesse caso poderia ser o governo privilegiando menos o ensino superior e direcionando uma maior atenção para o ensino básico gratuito que é onde estão as camadas mais pobres da população. Uma solução poderia ser privatizar (ou cobrar mensalidades de quem tem condições de pagar) as grandes instituições públicas com a condição de reservar vagas para estudantes carentes (como acontece com o PROUNI) ou continuando na administração, porém cobrando mensalidades de quem tem condições de pagar (uma forma mais ineficiente, mas com menos danos políticos). Fazendo isso, sobrariam mais recursos para investir na educação básica que é a maior causa da baixa mobilidade social entre os pobres e onde se concentra a maioria dos afrodescendentes. Longe de pensar que o problema se resolveria com mais recursos, o que sugiro é a mudança de foco do Estado e da sociedade.
O problema é que políticas que investem na educação de base têm seus efeitos percebidos num horizonte maior do que o mandato dos políticos. As cotas são políticas que têm efeitos perspectiveis também  no curto prazo e os políticos podem usar como plataforma eleitoral. Privatizar as universidades públicas pode ter um grande custo político (nosso país é muito atrasado culturalmente quando o assunto é privatização) enquanto investir na educação de base gera poucos benefícios (crianças não votam).
Os governantes podem até estarem bem intencionados, mas boa intenção não basta para resolvermos nossos problemas como é mostrado pelo economista Walter Williams neste vídeo e a promoção da igualdade de oportunidade é comentada pelos economistas Milton Friedman, Thomas Sowell e Michael Kinsley neste vídeo.
Perdemos uma oportunidade histórica de dar a essa população condições de lutar por forças próprias ao libertá-los. Poderíamos distribuir terra entre os recém libertos, época melhor para uma reforma agrária nós jamais teremos. Naquela época a posse e a produção na terra era muito importante economicamente, enquanto que hoje o capital humano é mais importante (por isso a ideia de reforma agrária foi ultrapassada pela reforma na educação). Sem estudo, profissão e auxílio, os negros saíram da escravidão para cair no desemprego. Os afrodescendentes (independentemente da cor da pele) não precisam de reparação histórica, precisam de melhores oportunidades.