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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cantiga de Reis - A Deus Menino

Meia noite já dada,
prazer santo respiremos,
em honra ao filho da virgem
alegres hinos cantemos.

Nasceu nosso redentor
na cidade de Belém
numa simples gruta ou lapa
de penhasco ao desdém.

Sofrendo ao rigor do frio
em vagidos naturais
posto em pobre manjedoura
bafejado de animais.

Ó Deus de imensa grandeza,
de poder e majestade,
reclinado num presépio
dando exemplo de humildade.

Cetro e coroa depondo,
os reis abrem seu tesouro,
e prostrados lhe oferecem
dons, mirra incenso e ouro.

Encantados desd’aurora,
já depois do meio dia,
a trazer-lhe seus presentes,
cada qual mais à porfia.

Cintilando a nova luz,
que se formou no oriente,
aos três magos excedia
com a fé a mais ardente.

A estrela que os guiava
em pleno fulgor divino,
se põe qual risonho sol
sobre onde estava o menino.

Abatei-vos, orgulhosos,
que sois terra, cinza e nada.
elevai-vos pelo bem,
respeitai a lei sagrada.

Exalta-se a natureza,
árvores dão fruto e flor,
e os astros em seu natal
brilham com novo fulgor.

Vinde, correi, ó mortais!
vinde os corações lhe dar!
vinde rendidos de amor!
vinde a Jesus adorar!

Autor: Miguel Gato (Fronteira dos Vales-MG)


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Trocador de Ilusões

Quem morou no interior
Ou quem já passou por lá
Deve já ter conhecido
Um mascate popular
Um caixeiro viajante
Indo a todo lugar

Conheci esse mascate
Que não vendeu nem comprou
Preferindo o troca-troca
Com muita gente “rolou”
Eu escrevo sua história
Do jeito que ele narrou

Vou mudar minha rima
Vou pedir sua atenção
Deixo de lado a sextilha
Vou narrar oita-quadrão
Não faça como o mascate
Não troque a rimação

Troquei cana por bambu
Troquei pombo por anu
Troquei cobra em teiu
Cinza troquei pelo carvão
A calma pela aflição
Troquei padre numa freira
O mercado pela feira
Troquei quadra por quadrão

Troquei raio por corisco
Troquei traço pelo risco
Dei um peixe num marisco
Troquei a sogra pelo cão
Gaiola num alçapão
Troquei Caim por Abel
Um soldado em coronel
Troquei quadra por quadrão

Troquei mudo em caolho
Dei surdo por zarolho
Troquei nariz pelo olho
O olho dei na visão
Troquei doente por são
Dei junho em abril
O ão eu dei num til
Troquei quadra por quadrão

Troquei Thatcher em Malvina
O destino eu dei na sina
Troquei o verso pela rima
Troquei bucha por canhão
Troquei sujo por sabão
Dei nelore em zebu
Uma rã dei num cururu
Troquei quadra por quadrão

Troquei burro pela besta
Um balaio dei numa cesta
Troquei quinta pela sexta-feira
Dei batizado em pagão
Troquei amor por paixão
Troquei cama pela cova
Dei dez velhas numa nova
Troquei quadra por quadrão

Troquei boteco em butique
Dei Berlim por Munique
Desmaio troquei por chilique
Troquei praga em maldição
Delfim eu dei na inflação
Troquei piau em crumatá
Francesa por alemã
Troquei quadra por quadrão

Troquei cachaça por mé
Dei Garrincha em Pelé
Troquei Tomás por Tomé
Troquei o sim pelo não
Dei Cosme por Damião
Dei o Xá por Khomeini
O capeta por Mussolini
Troquei quadra por quadrão.

O vale não troquei por nada
Mas dei numa terra sonhada
Meu coração prá uma fada
E em troca tive a lição
Ela me disse: preste atenção
Nosso amor e Itaobim
Só troque pelo céu mesmo assim
Cantando Quadra e Quadrão

Autor: Jansen Chaves

domingo, 12 de outubro de 2014

Triste Cantiga de Roda

Me lembro de quando eu era criança
e saía a caçar borboletas
mesmo onde não haviam borboletas.
Ficava a contemplar o sol
que se repetia todos os dias,
clareando a seca, a fome, a preocupação.
Tinha vez que o sol esquentava tanto,
que diziam que o mundo ia pegar fogo.
Então, era preciso fazer penitência:
andar descalço até o cruzeiro,
a terra rachando de quente,
e pedir a todos os santos do céu
“uma gota dágua pelo amor de Deus”.
Mas eu era apenas uma criança
e a bola de gude era azul.
Esperava muito.
Por exemplo,
O dia em que o rio Jequitinhonha virasse mar.
Conheci o mar na escola
E, na época de cheia,
eu pensava que era o mar que já vinha.
Esperava até por mim mesmo.
Queria ser “gente grande”, ser “rei”.
Cresci, sem este poder.
As notícias de jornais foram mais fortes
e foi através dos jornais
que descobri que morava no “Vale”,
a região mais pobre do país
e que não éramos tão civilizados.
Ganhamos então a energia elétrica, o DDD, o asfalto.
E o “Vale” está em progresso!
Mas os jornais esquecem de noticiar
que todos os dias à noite,
as crianças não brincam mais de roda, Maria Buscambeira
e outras coisas mais.
As praças estão silentes
escondendo uma lua
que a TV se encarrega de ofuscar.
Basta!
Não precisamos mais visitar o vizinho,
contar casos de lobisomen
e brincar nos escales.
No Vale do Jequitinhonha,
os peixes não nadam mais
como antigamente

Autor: José Machado de Mattos

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Último Parto

Minha mãe trouxe de Araçuaí, 
no boi da canoa, 
uma linda criança. 
Descera nas águas claras 
daquele rio, 
onde o sol lumiava 
as mãos e os remos dos canoeiros. 
A água azul 
tingia a pureza do meu pai 
e nós, no lajedo, doidos para vê-la, 
cada um primeiro que o outro. 
Eu vi primeiro, gritávamos. 
E a tarde mostrou seu nome, 
nome de vida, nome de santa: 
Maria Efigênia. 
Depois, Fija, Efi e tia Fija. 
Ficou menina caçula sorrindo branco 
a luz clara dos seus olhos verdes. 
E será sempre caçula 
bebendo água na concha da mão 
e brincando de guisado no fundo do quintal. 
Será sempre Fija, 
“sempre-viva”, 
sempre o sempre 
neste eterno em que a vida promete, 
um dia, as asas da sombra. 
Será,talvez, a última 
a contar a nascente da mina dágua 
na beira do barranco. 
Será a última (quem sabe) 
a contar o sabor de um colo. 
Será minha mãe, 
me ensinando como a outra mãe, 
ensinando pra seu outro filho, 
o labutar da vida. 
Será mesmo a mama 
dos manos unidos 
naquele cordão enterrado, 
cortado a tesoura, 
a única sem parto de vovó Isaura 
porque a última. 
Será quando o tempo nos trouxer 
“saudades”

Autor: José Machado de Mattos

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Vale do Jequitinhonha - um estudo poético

São 52 cidades perdidas no sertão mineiro, 
Esse imenso latifúndio. 

Na extremidade nordeste do Estado de Minas Gerais 
(onde a miséria e o convívio 
com os mortos é uma paisagem 
mais árida que a terra e o 
estigma ancestral dos 
retirantes) 
(onde a noite encontra 
os homens insepultos no cansaço 
das glebas, vertendo fome das veias 
agrárias entrecortadas de silêncios 
lacaios) 

Vale onde vale 
quem tem 
e um rio corre manso, dando nome 
à terra, 
rio que o homem acompanha com os olhos vazios 
de solidão 
e a alma doente de infelizes 
sem olhos para o dia

Autor: Wesley Pioest

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Os versos da nossa Lira

Os versos da nossa Lira
(Tadeu Martins)

Com barro Deus fez o homem
À sua imagem e semelhança
Com barro ELA faz arte
Desde os tempos de criança
ELA retrata a vida do povo
Em artesanato, canto e dança

ELA não foi encontrada
Nas redes de um pescador
Mas se parece com a Santa,
Em coragem, pureza e cor
Na luta para colocar peixes
Na mesa do trabalhador

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Jequitinhonhês - o dialeto do Vale

Acima do paralelo 18
Do nosso globo terrestre
Fica uma região de Minas
Uma terra bem campestre
Lá conheço um político
Que quis dar uma de mestre.

Na cidade de Itaobim
Bem no nordeste mineiro
Foi que esse caso se deu
Num esforço derradeiro
É sobre as Ilhas Malvinas
Essa guerra do estrangeiro.

Num discurso do político
Ao assunto ele refere
Tinha proposta de paz
Pra Leopoldo Galtieri
Pois o acordo tava mais lento
Do que veio de beribéri.

“Eu proponho ao General
Acabar com essa zona
Manda o exército voltar
Dá pra ele uma carona
E como a guerra ta no mar
Entregue logo o mar-à-dona”.

“Ou então o senhor e a Margareth
Dá um chega aqui em Minas
Ela representa os ingleses
E o senhor as argentinas
E nós muda o nome das ilhas
Pra Malk-land ou Falk-vinas”.

“E olhe que o encontro com dona Tatcher
É uma coisa que adianta
Pois Margareth é sensual
Com vestido ou com manta
Pois ela entra no Parlamento
E todo membro se levanta”

“E para terminar
Veja bem este enfoque
Põe um som tocando tango
E no outro deixa roque
Pede ao povo das Malvinas
Escolher pelo seu toque”.

“Rogo, parem com a guerra
Pela Santa Catarina
Pois todo dia em meu buteco
Tem a maior quebrantina
Das batatinhas inglesas
Com as maçãs argentinas"

Urubu não chupa cana
Língua de sogra não tem peçonha
Cantador pra ter coragem
Não precisa ter vergonha
Vou cantar a minha terra
Vale do Jequitinhonha.

Nossa língua é diferente
Quando eu falo você nota
Resfriado é difruço
Nome de rã é caçota
Quilo e meio pra nós é prato
E carro de mão é galinhota

Autor: Tadeu Martins

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vale, Vida, Versos e Viola

Hoje lembrei de uma poesia que escrevi na aula de literatura quando estava no 1° ano do ensino médio. Era uma tarefa valendo nota e lembro que a professora gostou bastante e ao ler a poesia vencedora do 29° FESTIVALE eu lembrei dela. Óbvio que não se compara, mas minha "inspiração" tinha sido o FESTIVALE. Aí vai ela:

O Vale é Vida
Vidas que se transformam em versos
Versos que viram canções em minha viola
Viola que traduz a vida no Vale

Esta frase "Vale, Vida, Versos e Viola" foi cunhada na primeira edição do FESTIVALE em Itaobim e minha tia Rosa tinha um quadro muito bonito com esta frase que eu admirava muito quando criança e por isso eu "roubei" o título.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Jequi

"Je- qui- ti- nho- nha

Vale do Jequitinhonha,

Mãos calejadas,

Pés firmes,

Olhares profundos,

Estradas vermelhas,

Estradas pedregosas,

Capim alto,

Rio caudaloso e corrente,

De muitos poetas e histórias,

De muitos homens,

Mulheres,

Velhos

E crianças.

Rio Jequitinhonha,

Morada de Oxum,

E de tantos orixás que nele quiser habitar,

Princípio do Vale,

Sustento de famílias,

Areia para a construção,

Peixes para a alimentação,

Rio Jequitinhonha que modela o Vale,

Rio Jequitinhonha que dá vida ao Vale,

Ao Vale da Mata Escura,

Ao Vale também da gente escura,

Rio Jequitinhonha onde se tira o barro,

Barro,

O sustento do artesão,

Sutento de Dona Maria e Seu Chico.

Assim como muitas Marias e Franciscos,

Sustento das mulheres de Guaranilândia,

Mulheres fortes,

Corajosas,

Mulheres adubo,

Mulheres semente,

Mulheres que moldam e tecem vidas,

Vidas de um Vale próspero,

Justo,

E felíz!"


Autor: Desconhecido

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Linda poesia do Vale do Jequitinhonha

"Valemos mais pelo que somos e menos pelo que temos, valendo assim, e assim sendo, sempre valeremos"



Esta menina do Coral Água Branca da cidade de Itinga mandou muito bem na interpretação. Esta apresentação ocorreu nas comemorações dos 25 anos do Coral Nossa Senhora do Rosário que eu tive o prazer de participar. Este vídeo foi gravado por Tarsila no Centro Cultural Luz da Lua na cidade de Araçuaí.