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sexta-feira, 1 de maio de 2015

A saga de uma lavadeira

A Saga de uma Lavadeira
(Juarez Freitas)


Maria de Nondas, heroína anônima,
lavava as roupas na bacia das almas.
criava os filhos tirando leite de pedra,
comendo o pão que o diabo amassou.
Alimentava a família e a esperança
com palavras vivas recheadas de fé.

Mulher guerreira, não fugia a labuta,
Viúva de marido vivo vivia um dilema,
a dor do até logo que virou adeus,
a Deus lamentava a cruz pesada
que mesmo sem pedir, lhe foi dada,
como “prêmio” pelos atos de bravura.

Maria de Nondas, prostituída pela sina,
mãos e alma calejadas, pés descalços,  
vendia labor, crença e perseverança.
Escrevia nas linhas tortas do tempo
a história de uma certeza incerta,
ferida aberta que não quer fechar.

Fonte de vida, a bica das lavadeiras,
confidente fiel, única companheira,
não era como Maria, perdia a força,
derramava suas últimas lágrimas,
minando os sonhos e a ousadia
de um sinônimo de mulher: Maria!

O rio acariciava-lhe os pés e o olhar,
regava o orgulho de uma “Severina”
que de grão em grão sabia colher
o pão de cada dia e a razão de viver.
A seca devorou o rio, poeira e calor
emudeceram o eco e o grito da “flor”.

A fome, impiedosa, batia-lhe a porta,
a saudade, infinita batia-lhe no peito,
encurralada na vida como bicho, 
encarcerada pelo destino como réu,
sem saída, Maria renunciou a vida,
virou estrela e foi morar no céu.

Poesia vencedora da 16ª Noite Literária do 29° FESTIVALE realizado em Padre Paraíso.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cantiga de Reis - A Deus Menino

Meia noite já dada,
prazer santo respiremos,
em honra ao filho da virgem
alegres hinos cantemos.

Nasceu nosso redentor
na cidade de Belém
numa simples gruta ou lapa
de penhasco ao desdém.

Sofrendo ao rigor do frio
em vagidos naturais
posto em pobre manjedoura
bafejado de animais.

Ó Deus de imensa grandeza,
de poder e majestade,
reclinado num presépio
dando exemplo de humildade.

Cetro e coroa depondo,
os reis abrem seu tesouro,
e prostrados lhe oferecem
dons, mirra incenso e ouro.

Encantados desd’aurora,
já depois do meio dia,
a trazer-lhe seus presentes,
cada qual mais à porfia.

Cintilando a nova luz,
que se formou no oriente,
aos três magos excedia
com a fé a mais ardente.

A estrela que os guiava
em pleno fulgor divino,
se põe qual risonho sol
sobre onde estava o menino.

Abatei-vos, orgulhosos,
que sois terra, cinza e nada.
elevai-vos pelo bem,
respeitai a lei sagrada.

Exalta-se a natureza,
árvores dão fruto e flor,
e os astros em seu natal
brilham com novo fulgor.

Vinde, correi, ó mortais!
vinde os corações lhe dar!
vinde rendidos de amor!
vinde a Jesus adorar!

Autor: Miguel Gato (Fronteira dos Vales-MG)


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Trocador de Ilusões

Quem morou no interior
Ou quem já passou por lá
Deve já ter conhecido
Um mascate popular
Um caixeiro viajante
Indo a todo lugar

Conheci esse mascate
Que não vendeu nem comprou
Preferindo o troca-troca
Com muita gente “rolou”
Eu escrevo sua história
Do jeito que ele narrou

Vou mudar minha rima
Vou pedir sua atenção
Deixo de lado a sextilha
Vou narrar oita-quadrão
Não faça como o mascate
Não troque a rimação

Troquei cana por bambu
Troquei pombo por anu
Troquei cobra em teiu
Cinza troquei pelo carvão
A calma pela aflição
Troquei padre numa freira
O mercado pela feira
Troquei quadra por quadrão

Troquei raio por corisco
Troquei traço pelo risco
Dei um peixe num marisco
Troquei a sogra pelo cão
Gaiola num alçapão
Troquei Caim por Abel
Um soldado em coronel
Troquei quadra por quadrão

Troquei mudo em caolho
Dei surdo por zarolho
Troquei nariz pelo olho
O olho dei na visão
Troquei doente por são
Dei junho em abril
O ão eu dei num til
Troquei quadra por quadrão

Troquei Thatcher em Malvina
O destino eu dei na sina
Troquei o verso pela rima
Troquei bucha por canhão
Troquei sujo por sabão
Dei nelore em zebu
Uma rã dei num cururu
Troquei quadra por quadrão

Troquei burro pela besta
Um balaio dei numa cesta
Troquei quinta pela sexta-feira
Dei batizado em pagão
Troquei amor por paixão
Troquei cama pela cova
Dei dez velhas numa nova
Troquei quadra por quadrão

Troquei boteco em butique
Dei Berlim por Munique
Desmaio troquei por chilique
Troquei praga em maldição
Delfim eu dei na inflação
Troquei piau em crumatá
Francesa por alemã
Troquei quadra por quadrão

Troquei cachaça por mé
Dei Garrincha em Pelé
Troquei Tomás por Tomé
Troquei o sim pelo não
Dei Cosme por Damião
Dei o Xá por Khomeini
O capeta por Mussolini
Troquei quadra por quadrão.

O vale não troquei por nada
Mas dei numa terra sonhada
Meu coração prá uma fada
E em troca tive a lição
Ela me disse: preste atenção
Nosso amor e Itaobim
Só troque pelo céu mesmo assim
Cantando Quadra e Quadrão

Autor: Jansen Chaves

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Um deboche democrático e social

Esperei demais, já passou da hora,
adeus Jequitinhonha,
estou indo embora.
Nasci tatu e vou morrer cavando,
mas se aqui não me querem,
fico não senhor,
vou pra capital, cidade grande,
cavar minha vida num tal de metrô.
Adeus meus sete palmos deste chão,
Está tudo como o Diabo tinha programado.
Adeus Lei do Cão, estatuto enterrado,
adeus prefeito, adeus delegado,
vou dar meu voto numa chique zona,
ser saco de pancada em nobre povoado.
Arrenegado dessa divisão
(muito pão em pouca mão
e trabalhador sem fatia),
o patrão só dando ordens,
me julgando à revelia,
também virei ditador
e ordeno ao modo do impostor:
arruma a trouxa, Maria!
Se no outro 15 de novembro
carecerem de nossos votos,
eles que mandem dinheiro da passagem,
do sapato, roupa nova e coisa e tal.
A gente faz que perdeu o trem da viagem,
vota na zona de lá (perdão pela sacanagem)
e poupa o dinheiro para uma feira eleitoral

Autor: Gonzaga Medeiros

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Verso de roda

Palmatória quebra dedo
Chicote deixa vergão
Cassetete quebra costela
Mas não quebra opinião

Verso de roda de Araçuaí



domingo, 12 de outubro de 2014

Triste Cantiga de Roda

Me lembro de quando eu era criança
e saía a caçar borboletas
mesmo onde não haviam borboletas.
Ficava a contemplar o sol
que se repetia todos os dias,
clareando a seca, a fome, a preocupação.
Tinha vez que o sol esquentava tanto,
que diziam que o mundo ia pegar fogo.
Então, era preciso fazer penitência:
andar descalço até o cruzeiro,
a terra rachando de quente,
e pedir a todos os santos do céu
“uma gota dágua pelo amor de Deus”.
Mas eu era apenas uma criança
e a bola de gude era azul.
Esperava muito.
Por exemplo,
O dia em que o rio Jequitinhonha virasse mar.
Conheci o mar na escola
E, na época de cheia,
eu pensava que era o mar que já vinha.
Esperava até por mim mesmo.
Queria ser “gente grande”, ser “rei”.
Cresci, sem este poder.
As notícias de jornais foram mais fortes
e foi através dos jornais
que descobri que morava no “Vale”,
a região mais pobre do país
e que não éramos tão civilizados.
Ganhamos então a energia elétrica, o DDD, o asfalto.
E o “Vale” está em progresso!
Mas os jornais esquecem de noticiar
que todos os dias à noite,
as crianças não brincam mais de roda, Maria Buscambeira
e outras coisas mais.
As praças estão silentes
escondendo uma lua
que a TV se encarrega de ofuscar.
Basta!
Não precisamos mais visitar o vizinho,
contar casos de lobisomen
e brincar nos escales.
No Vale do Jequitinhonha,
os peixes não nadam mais
como antigamente

Autor: José Machado de Mattos

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Último Parto

Minha mãe trouxe de Araçuaí, 
no boi da canoa, 
uma linda criança. 
Descera nas águas claras 
daquele rio, 
onde o sol lumiava 
as mãos e os remos dos canoeiros. 
A água azul 
tingia a pureza do meu pai 
e nós, no lajedo, doidos para vê-la, 
cada um primeiro que o outro. 
Eu vi primeiro, gritávamos. 
E a tarde mostrou seu nome, 
nome de vida, nome de santa: 
Maria Efigênia. 
Depois, Fija, Efi e tia Fija. 
Ficou menina caçula sorrindo branco 
a luz clara dos seus olhos verdes. 
E será sempre caçula 
bebendo água na concha da mão 
e brincando de guisado no fundo do quintal. 
Será sempre Fija, 
“sempre-viva”, 
sempre o sempre 
neste eterno em que a vida promete, 
um dia, as asas da sombra. 
Será,talvez, a última 
a contar a nascente da mina dágua 
na beira do barranco. 
Será a última (quem sabe) 
a contar o sabor de um colo. 
Será minha mãe, 
me ensinando como a outra mãe, 
ensinando pra seu outro filho, 
o labutar da vida. 
Será mesmo a mama 
dos manos unidos 
naquele cordão enterrado, 
cortado a tesoura, 
a única sem parto de vovó Isaura 
porque a última. 
Será quando o tempo nos trouxer 
“saudades”

Autor: José Machado de Mattos

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Vale do Jequitinhonha - um estudo poético

São 52 cidades perdidas no sertão mineiro, 
Esse imenso latifúndio. 

Na extremidade nordeste do Estado de Minas Gerais 
(onde a miséria e o convívio 
com os mortos é uma paisagem 
mais árida que a terra e o 
estigma ancestral dos 
retirantes) 
(onde a noite encontra 
os homens insepultos no cansaço 
das glebas, vertendo fome das veias 
agrárias entrecortadas de silêncios 
lacaios) 

Vale onde vale 
quem tem 
e um rio corre manso, dando nome 
à terra, 
rio que o homem acompanha com os olhos vazios 
de solidão 
e a alma doente de infelizes 
sem olhos para o dia

Autor: Wesley Pioest

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Jequitinhonhês - o dialeto do Vale

Acima do paralelo 18
Do nosso globo terrestre
Fica uma região de Minas
Uma terra bem campestre
Lá conheço um político
Que quis dar uma de mestre.

Na cidade de Itaobim
Bem no nordeste mineiro
Foi que esse caso se deu
Num esforço derradeiro
É sobre as Ilhas Malvinas
Essa guerra do estrangeiro.

Num discurso do político
Ao assunto ele refere
Tinha proposta de paz
Pra Leopoldo Galtieri
Pois o acordo tava mais lento
Do que veio de beribéri.

“Eu proponho ao General
Acabar com essa zona
Manda o exército voltar
Dá pra ele uma carona
E como a guerra ta no mar
Entregue logo o mar-à-dona”.

“Ou então o senhor e a Margareth
Dá um chega aqui em Minas
Ela representa os ingleses
E o senhor as argentinas
E nós muda o nome das ilhas
Pra Malk-land ou Falk-vinas”.

“E olhe que o encontro com dona Tatcher
É uma coisa que adianta
Pois Margareth é sensual
Com vestido ou com manta
Pois ela entra no Parlamento
E todo membro se levanta”

“E para terminar
Veja bem este enfoque
Põe um som tocando tango
E no outro deixa roque
Pede ao povo das Malvinas
Escolher pelo seu toque”.

“Rogo, parem com a guerra
Pela Santa Catarina
Pois todo dia em meu buteco
Tem a maior quebrantina
Das batatinhas inglesas
Com as maçãs argentinas"

Urubu não chupa cana
Língua de sogra não tem peçonha
Cantador pra ter coragem
Não precisa ter vergonha
Vou cantar a minha terra
Vale do Jequitinhonha.

Nossa língua é diferente
Quando eu falo você nota
Resfriado é difruço
Nome de rã é caçota
Quilo e meio pra nós é prato
E carro de mão é galinhota

Autor: Tadeu Martins

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O 31° FESTIVALE será realizado em Araçuaí

Neste ano a cidade de Araçuaí sediará o principal evento de cultura popular do Vale do Jequitinhonha. O XXXI Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (FESTIVALE ) será realizado entre os dias 29 de junho e 5 de Julho em Araçuaí. O evento tem tudo para ser um sucesso, pois a cidade já conta com grande quantidade de grupos e artistas populares para a realização do evento, além de ser uma das cidades de maior porte do Vale do Jequitinhonha e contar com relativa boa estrutura para sediar o FESTIVALE.

Será uma ótima alternativa para quem está de férias e resolveu não se arriscar a assistir de perto os jogos da Copa do Mundo FIFA de 2014 realizado nas principais capitais do Brasil. Para conhecer melhor um pouco da história do FESTIVALE, acesse este link

Principais pontos turísticos:
  • Feira municipal realizada aos sábados aqui.
  •  Associação dos Artesãos de Araçuaí aqui.
  • Cooperativa Dedo de Gente aqui.
  • Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos aqui.
  • Prédio da antiga estação ferroviária Bahia & Minas aqui.
  • Chapada do Lagoão aqui.
  • Encontro e travessia dos rios Araçuaí e Jequitinhonha aqui.
  • Aldeia Cinta Vermelha Jundiba aqui.
Artistas e grupos populares:
  • Coral Trovadores do Vale (link)
  • Coral Nossa Senhora do Rosário (link)
  • Coral Araras Grandes (link)
  • Coral Santa Tereza
  • Coral do Arraial dos Crioulos de Araçuaí (link)
  • Coral Meninos de Araçuaí (link)
  • Coral Bem-te-vi 
  • Grupo Vozes de Teatro (link)
  • Grupo de Teatro Ícaros do Vale (link)
  • Grupo de Percussão Conexão Afro Quigemm (link
  • Lira Marques (link)
  • Dona Zefa (link)
  • Dona Generosa 
  • Luciano Tanure (link)
  • Josino Medina (link)
  • Joana Dárc
  • Dêner Pinheiro (link)
  • Luiz Paulo Neres (link)
Realização do FESTIVALE no ano de 1984 em Araçuaí:
  • Festivale de 1984 em Araçuaí, MG - Vídeo

Realização do FESTIVALE no ano de 2006 em Araçuaí:
  • Festivale 2006, Araçuai, MG - Parte 1
  • Festivale 2006, Araçuai, MG - Parte 2
Distância aproximada aos principais centros (Km):
  • Belo Horizonte: 696 por Teófilo Otoni e 606 por Diamantina
  • São Paulo: 1.221 passando por Belo Horizonte e Teófilo Otoni
  • Rio de Janeiro: 956
  • Brasília:  1025 por Montes Claros e Salinas
  • Vitória: 778
  • Salvador: 820 
Principais rodovias que servem ao município:
  • BR-367, BR-342, LMG-676, LMG-678 e BR-116 (passa próximo ao município) 
Consulte passagens de ônibus no site da ANTT aqui. A cidade não possui aeroporto com voos regulares, mas os aeroportos com voos regulares mais próximos são os das cidades de Montes Claros, Vitória da Conquista e Ipatinga/Governador Valadares. Dependendo do local de saída, pode ser vantajoso pegar avião até Belo Horizonte e ir de ônibus ou carro para Araçuaí.  

Participem deste grande evento de manifestação popular e tenha a chance de conhecer o Vale do Jequitinhonha em todos os seus pormenores. Serão mais que bem-vindos na cidade onde nasci e cresci. Quem for lá não vai se arrepender. Página do evento no facebook aqui



sábado, 19 de abril de 2014

Sobre a política de cotas para negros no Brasil

Muito tem se debatido sobre as recentes políticas de cota para afrodescendentes (indígena também entram, mas como existem em menor número, não são objetos de discussão) no Brasil e gerado bastante polêmica entre os que podem e que os não podem beneficiados pela política. Do ponto de vista do problema, ele existe e está escancarado pelo Brasil. É só você fechar os olhos e imaginar um lugar majoritariamente (quase 100%) dominado por negros e não negros, os negros vítimas da escravidão se refugiaram principalmente em quilombos e lugares menosprezados pela elite branca da época e que hoje conhecemos como favelas enquanto que um lugar onde dificilmente você vai encontrar algum negro seria nos bairros mais de classe alta de qualquer cidade grande.
Não tem como negar que esta realidade é consequência das políticas de discriminação e segregação da elite dominante de épocas passadas que controlavam o governo e engendravam políticas restritivas que visavam sua manutenção do poder político e econômico. Aos antepassados negros foram negados os direitos a propriedade privada, educação pública e, por um longo período de tempo, a liberdade individual (leia aqui, aqui e aqui).
Uma das consequências mais perversas da escravidão foi que a diferença entre o capital humano (sentido econômico) do negro e do branco foi ampliando ao longo do tempo. Havia brancos pobres, mas estes não tiveram restrições tão severas quanto a dos negros no que diz respeito a possibilidade de ultrapassar a pobreza. Boa parte da população branca que não ascendeu socialmente dividiu os mesmos lugares frequentados que os negros, criando um grande processo de miscigenação no Brasil. Talvez essa seja a razão de incluir pessoas pardas como cotistas, seus antepassados (brancos, índios e amarelos com negro) viveram situação semelhante.
Sou contra os argumentos que citam italianos, alemães, japoneses e outros vindos aqui para o Brasil em condições ruins como argumento que desmerecem as cotas raciais. Suas condições eram ruins, mas não foram nem de perto mais restritivas do que a dos negros, basta visitarem um bairro majoritariamente de descendentes desses povos e compará-los com os habitados por maioria negra.
Posto isso, é inegável que o negro sofreu discriminação no passado e que as consequências ecoam até nosso tempo. Não é muito difícil enxergar isso quando visitamos uma periferia e um bairro de classe alta. A probabilidade de alguém que nasceu numa família negra ser pobre é muito maior do que numa família predominantemente branca. Posto isso, o problema existe e não é fruto da aleatoriedade, falta de esforço, habilidade ou sorte.
A sociedade então tem o dever de reparar os negros? As cotas estão aí para solucionar este problema? Minha resposta é não para ambas as perguntas. A primeira é impossível, quem sofreu com escravidão, teve o direito a propriedade da terra negado e sofreu com a segregação mais severa está morto e não temos como ressuscitá-los para que possam ter uma vida melhor (homens como este aqui não voltarão a vida). Foi uma página horrível na história e não temos como mudá-la. A segunda em certo ponto ajuda a resolver o problema da mobilidade social, mas não é a maneira mais efetiva e cria desequilíbrios entre os pobres cotistas e não cotistas.
Se a sociedade hoje é racista eu não sei, mas sei que exames de admissão em universidades e concursos públicos não são racistas. As pessoas fazem as provas e quem somar o maior número de pontos entra na vaga, independentemente de cor, sexualidade, religião, etc. Os exames acabam sendo reflexo da falta de oportunidade lá no início da formação da pessoa e os mais afetados são os negros pelas razões já expostas. Na época que surgiu a cota, dois colegas brancos e eu disputávamos vagas em universidades pelo PROUNI e só eu tinha o “bônus” a mais pela cor (o sistema não é só para descendentes, mas tem que ter cor semelhante aos antepassados negros), mas me via em condições praticamente iguais a eles para competir pelas vagas. Todos conseguiram uma vaga e, mesmo sem o benefício da cota, consegui entrar numa excelente instituição (me vangloriando um pouquinho, consegui a melhor nota entre os três).
Dito isto, onde está o problema que tem excluído tanta gente negra do acesso aos melhores centros de ensino do país? O problema está no ensino básico que é pouco valorizado no país, mas que é causa das grandes diferenças no conhecimento entre ricos e pobres, independentemente da cor. Como os negros estão majoritariamente na parcela pobre da população, são os mais afetados pela má qualidade no ensino. Este ciclo pernicioso permaneceu por longos tempos e as cotas surgiram como remédio para a falta de negro nos melhores centros de ensino.
Aí está o problema das cotas raciais, para resolver um problema origina-se outro, visto que também existem brancos (mesmo que em minoria) na mesma situação da maioria negra. Essa política pode ter resultados positivos no longo prazo, pois ao forçar a mobilidade social através de cotas raciais, os filhos dos negros beneficiados nascerão em melhores condições para disputar os melhores postos no mercado de trabalho. Porém, ela age perversamente ao diminuir as chances dos não cotistas na mesma condição poderem ultrapassar a pobreza. Então esta política, mesmo que bem intencionada, gera distorções e fica mais caracterizada como assistencialismo, pois não resolve o problema da falta mobilidade social de forma efetiva no Brasil. O problema existe e tem que ser combatido, mas a solução está longe de gerar concordância na sociedade e, levando para o economês, não é um ótimo de Pareto (melhor escolha entre as oportunidades possíveis).
Creio (não fiz um estudo) que um ótimo de Pareto nesse caso poderia ser o governo privilegiando menos o ensino superior e direcionando uma maior atenção para o ensino básico gratuito que é onde estão as camadas mais pobres da população. Uma solução poderia ser privatizar (ou cobrar mensalidades de quem tem condições de pagar) as grandes instituições públicas com a condição de reservar vagas para estudantes carentes (como acontece com o PROUNI) ou continuando na administração, porém cobrando mensalidades de quem tem condições de pagar (uma forma mais ineficiente, mas com menos danos políticos). Fazendo isso, sobrariam mais recursos para investir na educação básica que é a maior causa da baixa mobilidade social entre os pobres e onde se concentra a maioria dos afrodescendentes. Longe de pensar que o problema se resolveria com mais recursos, o que sugiro é a mudança de foco do Estado e da sociedade.
O problema é que políticas que investem na educação de base têm seus efeitos percebidos num horizonte maior do que o mandato dos políticos. As cotas são políticas que têm efeitos perspectiveis também  no curto prazo e os políticos podem usar como plataforma eleitoral. Privatizar as universidades públicas pode ter um grande custo político (nosso país é muito atrasado culturalmente quando o assunto é privatização) enquanto investir na educação de base gera poucos benefícios (crianças não votam).
Os governantes podem até estarem bem intencionados, mas boa intenção não basta para resolvermos nossos problemas como é mostrado pelo economista Walter Williams neste vídeo e a promoção da igualdade de oportunidade é comentada pelos economistas Milton Friedman, Thomas Sowell e Michael Kinsley neste vídeo.
Perdemos uma oportunidade histórica de dar a essa população condições de lutar por forças próprias ao libertá-los. Poderíamos distribuir terra entre os recém libertos, época melhor para uma reforma agrária nós jamais teremos. Naquela época a posse e a produção na terra era muito importante economicamente, enquanto que hoje o capital humano é mais importante (por isso a ideia de reforma agrária foi ultrapassada pela reforma na educação). Sem estudo, profissão e auxílio, os negros saíram da escravidão para cair no desemprego. Os afrodescendentes (independentemente da cor da pele) não precisam de reparação histórica, precisam de melhores oportunidades.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Eu não mereço ser enganado pelo IPEA

Que vergonha que uma instituição como o IPEA publique uma pesquisa tão tendenciosa, enganando o cidadão brasileiro. A pesquisa contém diversos erros como viés amostral (66% eram mulheres) e chega-se a uma conclusão que não cabe a uma pesquisa feita por amostra. Quem garante que o resultado seria igual se a pesquisa fosse feita com uma amostra diferente? Principalmente se for de fato representativa da população (48,5% de homens e 51,5% de mulheres) e aleatória (visitaram domicílios em horário comercial onde com certeza a maioria são mulheres de baixa escolaridade).
Sem contar que ativistas sem noção tirando conclusões precipitadas: "Eu não mereço ser estrupada porque estou semi-nua" porque numa das perguntas "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" 43% responderam que concordam totalmente e 22,4% concordam parcialmente. É claro e evidente que ninguém merece ser vítima de estupro por nenhum motivo, mas não é isso que essa pesquisa mal feita está retratando. Além de estar enviesada (o que torna inócuo os argumentos), as outras perguntas são respondidas em sentido contrário como a que 91,4% concordam que “Homem que bate em mulher tem que ir para cadeia”. Não é contraditório que uma amostra seja contra a violência contra a mulher e seja conivente com estupro por causa de pouca roupa? 
Isto só corrobora o tanto que esta pesquisa foi mal feita, pois apresenta respostas inconsistentes, mas o que mais deixa indignado são pessoas que devem ter como eu um mínimo de conhecimento sobre pesquisa chegarem a conclusões tão esdrúxulas. Depois de tanto estudar o papel de instituições no desenvolvimento econômico das nações eu vejo um retrocesso desse, chega a ser desolador. Será que estamos regredindo? Espero que não.
Quanto a questão do estupro, os estupradores não são as pessoas que responderam à pesquisa. Não adianta ficarem levantando plaquinhas para eles porque são doentes e não tem compaixão pela vítima, do contrário, não seriam estupradores. Tem mais, grande parte das vítimas de estupro são menores de idade, ou seja, estupro parece está muito mais correlacionado com a vulnerabilidade da vítima e não com a peça que usa ou deixa de usar no seu corpo.
Por fim, pelo menos espero que essa idiotice se transforme em algo bom como o diálogo entre famílias e com as crianças nas escolas. Pessoas que usam redes sociais já tem suas mentes transformadas, não adianta tentar educar eles, eduquem as crianças. Aos estupradores em potenciais, infelizmente só podemos cobrar penas severas e maior vigilância pela polícia em locais vulneráveis. E as mulheres cuidado aonde andam e com quem andam e em quem confiam. Nunca é demais pedirem para não ficarem expostas, suas roupas não vão mudar em nada se um estuprador te ver sozinha e vulnerável.
Abomino o estupro e não quero isso para minha mãe, irmãs, sobrinhas, primas, tias, amigas e mulheres em geral. Mas não posso concordar com uma pesquisa tendenciosa como essa que deturpa as causas principais dos estupros e servem para inflar o ódio de grupos feministas contra uma sociedade que sempre foi desfavorável ao estupro (todos sabem o que acontece com estupradores na cadeia).        

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Araçuaí, 140 anos

"Araçuaí. Terra de Lira. Tião Rocha. Frei Chico. Terra dos meninos e trovadores. Terra do barro batido com suor e lágrima. Lágrimas não só de tristezas e saudades. Barros não só de chão, mas de arte. Povo quente como a terra. São mineiros que falam mainha, são baianos de uai-sô. Somos de uma cultura única, de terra seca mas não saciada, de cultura rica, pois como terra cortada ávida por água de tudo se colhe. E de terra assim as raízes hão de ser mais profundas. Os traços do sofrimentos se misturam num rosto que conhece a felicidade pura. Paredes de adobe. Telhado de coxas. Tudo muito simples, e mesmo sendo visita de longe é tudo seu também. Nossas riquezas são outras, uma que não se toca mas se ouve e se sente."


Zona urbana
Rio Araçuaí
Homenagem aos canoeiros, um dos símbolos da cidade

Feira no sábado

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mineiríssimo

Orgulho de ser mineiro: temos progresso, tecnologia, história, cultura, literatura, poetas e trovadores, grandes universidades, cidades grandes e pequenas, temos rodovias, ferrovias, mas também temos roça, mato, vales, montanhas, estrada de terra, poeira, gente andando descalço, gente andando a cavalo, boiada cruzando a estrada, cachoeiras, ar puro, queijo e pão-de-queijo, cachaça da boa, café com leite, cigarro de palha, religiosidade, inocência, confiança e desconfiança, vida pacata, alegria de viver e, acima de tudo, liberdade. Isto é Minas!!!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

No Rio Grande do Sul...

Uai é bah
Sô é tchê
Semáforo é sinaleira
Guarda-roupa é roupeiro
Kitinet é JK
Cachecol é manta

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Música vencedora do 29° FESTIVALE

Agora de posse de novas notícias sobre a 29° edição do FESTIVALE que aconteceu na cidade de Jequitinhonha, fiquei sabendo que o ganhador do Festival de Música (maior evento da festa) foi muito mais que um conterrâneo, mas um amigo.

Parabéns Lucão, vencedor com a música Amigo do Sertão. Não pude ir ao evento, mas tenho certeza que a música é de muita qualidade, afinal estar numa lista de ganhadores com Paulinho Pedra Azul, Rubinho do Vale, Arnô Maciel, Mark Gladston (nosso Verono), Walter Dias e tantos outros talentos não é para qualquer um. Tenho certeza que a boa música do Jequi segue em boas mãos.

Veja a relação das músicas finalistas aqui. Ouça a música aqui.

Conheça também o trabalho do nosso amigo. Visite a página dele:

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vale, Vida, Versos e Viola

Hoje lembrei de uma poesia que escrevi na aula de literatura quando estava no 1° ano do ensino médio. Era uma tarefa valendo nota e lembro que a professora gostou bastante e ao ler a poesia vencedora do 29° FESTIVALE eu lembrei dela. Óbvio que não se compara, mas minha "inspiração" tinha sido o FESTIVALE. Aí vai ela:

O Vale é Vida
Vidas que se transformam em versos
Versos que viram canções em minha viola
Viola que traduz a vida no Vale

Esta frase "Vale, Vida, Versos e Viola" foi cunhada na primeira edição do FESTIVALE em Itaobim e minha tia Rosa tinha um quadro muito bonito com esta frase que eu admirava muito quando criança e por isso eu "roubei" o título.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Vida no Sul

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Casa de Cultura Mário Quintana

Usina do Gasômetro

Anfiteatro Por do Sol

FCE - UFRGS
Minha vida!

Parque Farroupilha (Redenção)

Frio danado ao amanhecer!

Av. Borges de Menedeiros

Sede administrativa do governo do RS

Lago Guaíba e entorno da rodoviária de POA

Bandeiras de POA, RS e Brasil

Mercado Público

Superintendência de Portos e Hidrovias

Almoçando com colegas

Nós e o bigodudo

Um amigo de BH e eu

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Primeira palestra internacional

No dia 8 de abril (última sexta-feira) tive o prazer de participar de minha primeira palestra internacional. E nada melhor do que uma palestra com um dos economistas mais influentes atualmente e que tem como campo de pesquisa a Economia da Cultura, algo que eu gosto muito, como sugere o título do blog.

Acho que economia e cultura tem tudo a ver, uma influencia a outra (e a outra influencia o um, como diria alguns "iletrados"), fazendo com que a sociedade seja determinada pelas inter-relações econômicas e culturais. Analisar como o ambiente econômico determina a cultura de um local não é tarefa fácil e o contrário (analisar como a cultura de um lugar afeta seu desempenho econômico) torna-se uma tarefa ainda mais difícil e dispendiosa. 

O economista Tyler Cowen tenta estabelecer como estas inter-relações contribuem para o desempenho econômico dos países em geral em diversas pesquisas e muitos de seus pensamentos estão contidos no blog Marginal Revolution escrito por ele. É um dos blogs que acompanho e foi muito bom ter presenciado e debate que se deu sobre as causas do recente crescimento econômico brasileiro e dos demais países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China) explicado sob seu ponto de vista. A palestra foi muito enriquecedora e aí vai um pouco dos dados da palestra:  


Seminário de Pesquisa I

Palestra: Globalization, Markets and Culture

Palestrante: Tyler Cowen (George Mason University)

Data: 8 de abril de 2011

Local: Sala 31A – 3º andar – FCE/PPGE – Economia Aplicada

Sobre Tyler Cowen:

Tyler Cowen (nascido em 21 de Janeiro de 1962) é um economista estadunidense, acadêmico e escritor. Ele ocupa a cátedra Holbert C. Harris de Economia na George Mason University e é coautor, com Alex Tabarrok do popular blog Marginal Revolution. Atualmente ele escreve a coluna "Economic Scene" (Cenário Econômico) para o jornal New York Times e escreve para as revistas The New Republic e The Wilson Quarterly. Em fevereiro de 2011, Cowen foi nomeado pela The Economist como um dos mais influentes economistas da última década.

O interesse principal de Cowen é a economia da cultura. Ele escreveu livros sobre a fama (What Price Fame?), arte (In Praise of Commercial Culture) e comércio cultural (Creative Destruction: How Globalization is Changing the World's Cultures). Em Markets and Cultural Voices, ele relata como a globalização está mudando o mundo de três pintores mexicanos. Cowen argumenta que o livre mercado muda a cultura para melhor, deixando-os envolver em algo que as pessoas desejam. Outros livros são: Public Goods and Market Failures, The Theory of Market Failure, Explorations in the New Monetary Economics, Risk and Business Cycles, Economic Welfare, e New Theories of Market Failure. 

Veja mais no Wikipedia em english e português.

Tyler Cowen's Web Page at GMU
Tyler Cowen's Vita at GMU
An interview with Tyler Cowen on The Marketplace of Ideas

quarta-feira, 30 de março de 2011

Zé Ramalho em Araçuaí

Para quem gosta de uma boa MPB com alguns requintes regionais, vai haver na cidade de Araçuaí um show com o cantor e compositor Zé Ramalho no dia 1º de abril (não é mentira rsrs). Suas melodias com traços ao mesmo tempo nordestino e mundial ainda fazem muito sucesso em shows com músicas ao vivo em bares e restaurantes do Brasil inteiro.

Será a hora de Araçuaí conhecer o verdadeiro talento deste cancioneiro da cultura brasileira e experimentar outras formas de cultura do que a habitual que sempre ocorre na cidade. Infelizmente ficarei de fora dessa devido a distância, mas se tivesse lá não perderia. Vai ser mais um ganho cultural para cidade e todo o Vale do Jequitinhonha. 

Parabéns aos organizadores do evento pela idéia!

Fonte: Kiau Serviços