Olá! Seja bem-vindo. Hoje é
.
Mostrando postagens com marcador Minas Gerais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Minas Gerais. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A saga de uma lavadeira

A Saga de uma Lavadeira
(Juarez Freitas)


Maria de Nondas, heroína anônima,
lavava as roupas na bacia das almas.
criava os filhos tirando leite de pedra,
comendo o pão que o diabo amassou.
Alimentava a família e a esperança
com palavras vivas recheadas de fé.

Mulher guerreira, não fugia a labuta,
Viúva de marido vivo vivia um dilema,
a dor do até logo que virou adeus,
a Deus lamentava a cruz pesada
que mesmo sem pedir, lhe foi dada,
como “prêmio” pelos atos de bravura.

Maria de Nondas, prostituída pela sina,
mãos e alma calejadas, pés descalços,  
vendia labor, crença e perseverança.
Escrevia nas linhas tortas do tempo
a história de uma certeza incerta,
ferida aberta que não quer fechar.

Fonte de vida, a bica das lavadeiras,
confidente fiel, única companheira,
não era como Maria, perdia a força,
derramava suas últimas lágrimas,
minando os sonhos e a ousadia
de um sinônimo de mulher: Maria!

O rio acariciava-lhe os pés e o olhar,
regava o orgulho de uma “Severina”
que de grão em grão sabia colher
o pão de cada dia e a razão de viver.
A seca devorou o rio, poeira e calor
emudeceram o eco e o grito da “flor”.

A fome, impiedosa, batia-lhe a porta,
a saudade, infinita batia-lhe no peito,
encurralada na vida como bicho, 
encarcerada pelo destino como réu,
sem saída, Maria renunciou a vida,
virou estrela e foi morar no céu.

Poesia vencedora da 16ª Noite Literária do 29° FESTIVALE realizado em Padre Paraíso.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Trocador de Ilusões

Quem morou no interior
Ou quem já passou por lá
Deve já ter conhecido
Um mascate popular
Um caixeiro viajante
Indo a todo lugar

Conheci esse mascate
Que não vendeu nem comprou
Preferindo o troca-troca
Com muita gente “rolou”
Eu escrevo sua história
Do jeito que ele narrou

Vou mudar minha rima
Vou pedir sua atenção
Deixo de lado a sextilha
Vou narrar oita-quadrão
Não faça como o mascate
Não troque a rimação

Troquei cana por bambu
Troquei pombo por anu
Troquei cobra em teiu
Cinza troquei pelo carvão
A calma pela aflição
Troquei padre numa freira
O mercado pela feira
Troquei quadra por quadrão

Troquei raio por corisco
Troquei traço pelo risco
Dei um peixe num marisco
Troquei a sogra pelo cão
Gaiola num alçapão
Troquei Caim por Abel
Um soldado em coronel
Troquei quadra por quadrão

Troquei mudo em caolho
Dei surdo por zarolho
Troquei nariz pelo olho
O olho dei na visão
Troquei doente por são
Dei junho em abril
O ão eu dei num til
Troquei quadra por quadrão

Troquei Thatcher em Malvina
O destino eu dei na sina
Troquei o verso pela rima
Troquei bucha por canhão
Troquei sujo por sabão
Dei nelore em zebu
Uma rã dei num cururu
Troquei quadra por quadrão

Troquei burro pela besta
Um balaio dei numa cesta
Troquei quinta pela sexta-feira
Dei batizado em pagão
Troquei amor por paixão
Troquei cama pela cova
Dei dez velhas numa nova
Troquei quadra por quadrão

Troquei boteco em butique
Dei Berlim por Munique
Desmaio troquei por chilique
Troquei praga em maldição
Delfim eu dei na inflação
Troquei piau em crumatá
Francesa por alemã
Troquei quadra por quadrão

Troquei cachaça por mé
Dei Garrincha em Pelé
Troquei Tomás por Tomé
Troquei o sim pelo não
Dei Cosme por Damião
Dei o Xá por Khomeini
O capeta por Mussolini
Troquei quadra por quadrão.

O vale não troquei por nada
Mas dei numa terra sonhada
Meu coração prá uma fada
E em troca tive a lição
Ela me disse: preste atenção
Nosso amor e Itaobim
Só troque pelo céu mesmo assim
Cantando Quadra e Quadrão

Autor: Jansen Chaves

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Verso de roda

Palmatória quebra dedo
Chicote deixa vergão
Cassetete quebra costela
Mas não quebra opinião

Verso de roda de Araçuaí



domingo, 12 de outubro de 2014

Triste Cantiga de Roda

Me lembro de quando eu era criança
e saía a caçar borboletas
mesmo onde não haviam borboletas.
Ficava a contemplar o sol
que se repetia todos os dias,
clareando a seca, a fome, a preocupação.
Tinha vez que o sol esquentava tanto,
que diziam que o mundo ia pegar fogo.
Então, era preciso fazer penitência:
andar descalço até o cruzeiro,
a terra rachando de quente,
e pedir a todos os santos do céu
“uma gota dágua pelo amor de Deus”.
Mas eu era apenas uma criança
e a bola de gude era azul.
Esperava muito.
Por exemplo,
O dia em que o rio Jequitinhonha virasse mar.
Conheci o mar na escola
E, na época de cheia,
eu pensava que era o mar que já vinha.
Esperava até por mim mesmo.
Queria ser “gente grande”, ser “rei”.
Cresci, sem este poder.
As notícias de jornais foram mais fortes
e foi através dos jornais
que descobri que morava no “Vale”,
a região mais pobre do país
e que não éramos tão civilizados.
Ganhamos então a energia elétrica, o DDD, o asfalto.
E o “Vale” está em progresso!
Mas os jornais esquecem de noticiar
que todos os dias à noite,
as crianças não brincam mais de roda, Maria Buscambeira
e outras coisas mais.
As praças estão silentes
escondendo uma lua
que a TV se encarrega de ofuscar.
Basta!
Não precisamos mais visitar o vizinho,
contar casos de lobisomen
e brincar nos escales.
No Vale do Jequitinhonha,
os peixes não nadam mais
como antigamente

Autor: José Machado de Mattos

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Último Parto

Minha mãe trouxe de Araçuaí, 
no boi da canoa, 
uma linda criança. 
Descera nas águas claras 
daquele rio, 
onde o sol lumiava 
as mãos e os remos dos canoeiros. 
A água azul 
tingia a pureza do meu pai 
e nós, no lajedo, doidos para vê-la, 
cada um primeiro que o outro. 
Eu vi primeiro, gritávamos. 
E a tarde mostrou seu nome, 
nome de vida, nome de santa: 
Maria Efigênia. 
Depois, Fija, Efi e tia Fija. 
Ficou menina caçula sorrindo branco 
a luz clara dos seus olhos verdes. 
E será sempre caçula 
bebendo água na concha da mão 
e brincando de guisado no fundo do quintal. 
Será sempre Fija, 
“sempre-viva”, 
sempre o sempre 
neste eterno em que a vida promete, 
um dia, as asas da sombra. 
Será,talvez, a última 
a contar a nascente da mina dágua 
na beira do barranco. 
Será a última (quem sabe) 
a contar o sabor de um colo. 
Será minha mãe, 
me ensinando como a outra mãe, 
ensinando pra seu outro filho, 
o labutar da vida. 
Será mesmo a mama 
dos manos unidos 
naquele cordão enterrado, 
cortado a tesoura, 
a única sem parto de vovó Isaura 
porque a última. 
Será quando o tempo nos trouxer 
“saudades”

Autor: José Machado de Mattos

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Vale do Jequitinhonha - um estudo poético

São 52 cidades perdidas no sertão mineiro, 
Esse imenso latifúndio. 

Na extremidade nordeste do Estado de Minas Gerais 
(onde a miséria e o convívio 
com os mortos é uma paisagem 
mais árida que a terra e o 
estigma ancestral dos 
retirantes) 
(onde a noite encontra 
os homens insepultos no cansaço 
das glebas, vertendo fome das veias 
agrárias entrecortadas de silêncios 
lacaios) 

Vale onde vale 
quem tem 
e um rio corre manso, dando nome 
à terra, 
rio que o homem acompanha com os olhos vazios 
de solidão 
e a alma doente de infelizes 
sem olhos para o dia

Autor: Wesley Pioest

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Os versos da nossa Lira

Os versos da nossa Lira
(Tadeu Martins)

Com barro Deus fez o homem
À sua imagem e semelhança
Com barro ELA faz arte
Desde os tempos de criança
ELA retrata a vida do povo
Em artesanato, canto e dança

ELA não foi encontrada
Nas redes de um pescador
Mas se parece com a Santa,
Em coragem, pureza e cor
Na luta para colocar peixes
Na mesa do trabalhador

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Jequitinhonhês - o dialeto do Vale

Acima do paralelo 18
Do nosso globo terrestre
Fica uma região de Minas
Uma terra bem campestre
Lá conheço um político
Que quis dar uma de mestre.

Na cidade de Itaobim
Bem no nordeste mineiro
Foi que esse caso se deu
Num esforço derradeiro
É sobre as Ilhas Malvinas
Essa guerra do estrangeiro.

Num discurso do político
Ao assunto ele refere
Tinha proposta de paz
Pra Leopoldo Galtieri
Pois o acordo tava mais lento
Do que veio de beribéri.

“Eu proponho ao General
Acabar com essa zona
Manda o exército voltar
Dá pra ele uma carona
E como a guerra ta no mar
Entregue logo o mar-à-dona”.

“Ou então o senhor e a Margareth
Dá um chega aqui em Minas
Ela representa os ingleses
E o senhor as argentinas
E nós muda o nome das ilhas
Pra Malk-land ou Falk-vinas”.

“E olhe que o encontro com dona Tatcher
É uma coisa que adianta
Pois Margareth é sensual
Com vestido ou com manta
Pois ela entra no Parlamento
E todo membro se levanta”

“E para terminar
Veja bem este enfoque
Põe um som tocando tango
E no outro deixa roque
Pede ao povo das Malvinas
Escolher pelo seu toque”.

“Rogo, parem com a guerra
Pela Santa Catarina
Pois todo dia em meu buteco
Tem a maior quebrantina
Das batatinhas inglesas
Com as maçãs argentinas"

Urubu não chupa cana
Língua de sogra não tem peçonha
Cantador pra ter coragem
Não precisa ter vergonha
Vou cantar a minha terra
Vale do Jequitinhonha.

Nossa língua é diferente
Quando eu falo você nota
Resfriado é difruço
Nome de rã é caçota
Quilo e meio pra nós é prato
E carro de mão é galinhota

Autor: Tadeu Martins

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O 31° FESTIVALE será realizado em Araçuaí

Neste ano a cidade de Araçuaí sediará o principal evento de cultura popular do Vale do Jequitinhonha. O XXXI Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (FESTIVALE ) será realizado entre os dias 29 de junho e 5 de Julho em Araçuaí. O evento tem tudo para ser um sucesso, pois a cidade já conta com grande quantidade de grupos e artistas populares para a realização do evento, além de ser uma das cidades de maior porte do Vale do Jequitinhonha e contar com relativa boa estrutura para sediar o FESTIVALE.

Será uma ótima alternativa para quem está de férias e resolveu não se arriscar a assistir de perto os jogos da Copa do Mundo FIFA de 2014 realizado nas principais capitais do Brasil. Para conhecer melhor um pouco da história do FESTIVALE, acesse este link

Principais pontos turísticos:
  • Feira municipal realizada aos sábados aqui.
  •  Associação dos Artesãos de Araçuaí aqui.
  • Cooperativa Dedo de Gente aqui.
  • Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos aqui.
  • Prédio da antiga estação ferroviária Bahia & Minas aqui.
  • Chapada do Lagoão aqui.
  • Encontro e travessia dos rios Araçuaí e Jequitinhonha aqui.
  • Aldeia Cinta Vermelha Jundiba aqui.
Artistas e grupos populares:
  • Coral Trovadores do Vale (link)
  • Coral Nossa Senhora do Rosário (link)
  • Coral Araras Grandes (link)
  • Coral Santa Tereza
  • Coral do Arraial dos Crioulos de Araçuaí (link)
  • Coral Meninos de Araçuaí (link)
  • Coral Bem-te-vi 
  • Grupo Vozes de Teatro (link)
  • Grupo de Teatro Ícaros do Vale (link)
  • Grupo de Percussão Conexão Afro Quigemm (link
  • Lira Marques (link)
  • Dona Zefa (link)
  • Dona Generosa 
  • Luciano Tanure (link)
  • Josino Medina (link)
  • Joana Dárc
  • Dêner Pinheiro (link)
  • Luiz Paulo Neres (link)
Realização do FESTIVALE no ano de 1984 em Araçuaí:
  • Festivale de 1984 em Araçuaí, MG - Vídeo

Realização do FESTIVALE no ano de 2006 em Araçuaí:
  • Festivale 2006, Araçuai, MG - Parte 1
  • Festivale 2006, Araçuai, MG - Parte 2
Distância aproximada aos principais centros (Km):
  • Belo Horizonte: 696 por Teófilo Otoni e 606 por Diamantina
  • São Paulo: 1.221 passando por Belo Horizonte e Teófilo Otoni
  • Rio de Janeiro: 956
  • Brasília:  1025 por Montes Claros e Salinas
  • Vitória: 778
  • Salvador: 820 
Principais rodovias que servem ao município:
  • BR-367, BR-342, LMG-676, LMG-678 e BR-116 (passa próximo ao município) 
Consulte passagens de ônibus no site da ANTT aqui. A cidade não possui aeroporto com voos regulares, mas os aeroportos com voos regulares mais próximos são os das cidades de Montes Claros, Vitória da Conquista e Ipatinga/Governador Valadares. Dependendo do local de saída, pode ser vantajoso pegar avião até Belo Horizonte e ir de ônibus ou carro para Araçuaí.  

Participem deste grande evento de manifestação popular e tenha a chance de conhecer o Vale do Jequitinhonha em todos os seus pormenores. Serão mais que bem-vindos na cidade onde nasci e cresci. Quem for lá não vai se arrepender. Página do evento no facebook aqui



terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mineiríssimo

Orgulho de ser mineiro: temos progresso, tecnologia, história, cultura, literatura, poetas e trovadores, grandes universidades, cidades grandes e pequenas, temos rodovias, ferrovias, mas também temos roça, mato, vales, montanhas, estrada de terra, poeira, gente andando descalço, gente andando a cavalo, boiada cruzando a estrada, cachoeiras, ar puro, queijo e pão-de-queijo, cachaça da boa, café com leite, cigarro de palha, religiosidade, inocência, confiança e desconfiança, vida pacata, alegria de viver e, acima de tudo, liberdade. Isto é Minas!!!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Jequitivale, uma canção do Vale do Jequitinhonha

Neste post eu vou discutir uma das músicas mais aclamadas pelos "filhos do Jequitinhonha" e pelas pessoas que admiram o Vale do Jequitinhonha. Trata-se da música Jequitivale, escrita pelo cantor e compositor nascido em Minas Novas - MG (cidade do Vale do Jequitinhonha) Mark Gladston Nunes e Sousa, o Verono. Esta música está contida no CD intitulado "Divera", lançado em 2005.

Este cantor que poderia ser um dos maiores expoentes do Vale morreu num trágico acidente de carro na cidade de Virgem da Lapa com apenas 26 anos. depois de ter realizado um show na cidade. Mas nada de lamento neste post, pois este pacato músico mineiro deixou lindas canções que ecoarão na eternidade, fazendo-o imortal.

Jequitivale é uma canção que caiu inteiramente no gosto de todos os habitantes e por aqueles que viveram ou passaram pelo Vale do Jequitinhonha. A razão para isto ter acontecido é que esta música retrata de uma forma pura e simples o amor que este compositor tem por sua região. A letra também retrata muito bem o cotidiano dos habitantes do Vale e cada passagem desta canção nos remete um pouco ao "jeito Vale de viver".

A música começa descrevendo o habitante típico do Jequitinhonha ao dizer "Você que anda com o pé rachado e com a palha atrás da orelha". Este é aquele cidadão típico que mora em pequenas cidades e vilarejos meio que "distantes da civilização" ou da modernidade. Isto é uma parte marcante nas regiões com a economia pequena e basicamente rural. Este cidadão que anda com o pé rachado, ou seja, descalço ou com calçado que mal lhe cobre o pé e com o velho cigarro de palha na orelha são os habitantes mais velhos que ainda trazem consigo as características e o modo de viver de seus pais, avós, bisavós, etc.

A canção continua na mesma estrofe dizendo assim "Com a aba do chapéu na testa e se vira da noite pro dia". Esta parte da música continua chamando a atenção para a descrição dos cidadãos do Vale ao colocar outras caracteríticas pertencentes a muitos habitantes desta mesorregião mineira. A parte "se vira da noite pro dia" ainda é um desafio para descrever, pois não sei se é simplesmente mais algo para demonstrar o cotidiano (acho mais plausível) ou se denota preocupação (o que não seria um traço caracterítico...).

Depois da primeira estrofe ele começa com "Você que banha no Fanado e que tira ouro de bateia". Aí entra outra característica arraigada em todo Vale do Jequitinhonha, o costume de banhar (tomar banho ou nadar) em algum dos diversos rios ou ribeirões que banham este Vale. Mas não é só isto que talvez esta parte quis buscar, tem também o aspecto que boa parte da vida dum cidadão do Vale é vivida na beira de um rio. Atividades como brincar, tomar banho, lavar roupas e vasilhas, pescar e muito mais coisas fazem dos habitantes do Vale verdadeiros peixes e quem sai de lá sempre sente saudade daquele rio ou ribeirão que passava perto de sua casa... No caso específico ele está falando sobre o Rio Fanado que é um dos rios que banha a sua cidade e que ele deve ter usufruído.

Há que se notar também uma característica posta na letra da música que é a forma que muitos habitantes até hoje procuram metais. Tirar ouro de bateia é um modo primitivo de se extrair ouro dos ribeirões e era assim que antigamente extraía ouro do Brasil a mando da coroa portuguesa. Os rios do Vale do Jequitinhonha eram rios que se podiam encontrar diversos metais preciosos, inclusive o ouro, trazendo diversos pessoas para o seu garimpo em busca de riqueza. Tem-se daí o começo da povoação do Vale pelos europeus e a busca por metais preciosas nos moldes antigos ainda persiste em alguns habitantes ribeirinhos nesta região.

Na terceira estrofe o autor coloca "Desculpe seu doutor mas receba os cumprimentos meus" "Eu fico com a filosofia do mestre João de Deus". Nesta estrofe podemos notar o jeito simples do cidadão do Vale no modo de se expressar com os outros e que prefere o simples ao complexo. Não sei quem é João de Deus, mas deve ser mais uma daquelas pessoas com idade avançada e com muita experiência para passar aos jovens. É comum ter nestas cidades alguma pessoa com mais idade que saiba se expressar sabiamente com a população e tem o respeito de todos, tendo assim uma garnde influência na população.

A quarta estrofe descreve o seguinte: "A saudade me maltrada e me faz olhar no calendário" "Pra ver se faltam poucos dias pra ouvir o tambor do rosário". Esta parte é a que chama a atenção de todos "filhos do Jequitinhonha", mas que por diversos motivos saíram do Vale em busca de novas conquistas. Vê-se o autor descrevendo uma festa que é a mais popular na sua cidade e que ele deveria gostar muito. Em cada cidade do Vale do Jequitinhonha tem pelo menos uma grande festa que é normalmente um evento cultural e/ou religioso (não sei se dá para separar as duas coisas) e que atrai diversos turistas e àqueles que nasceram e cresceram nestas cidades. As festas populares do Vale é uma oportunidade e convite para todos aqueles que se ausentaram de sua terra natal voltarem as suas raízes.

Outras coisa que vale a pena notar é a herança cultural vinda principalmente da cultura indígena e africana. Quem conhece o Vale vê que sua gente é em sua maioria cafuza, ou seja, mistura de negro com índio. A razão disso é que os povos indígenas do Vale do Jequitinhonha não aceitaram pacificamente a dominação portuguesa e resistiram bravamente para ficar na sua terra e muitos negros fugiam da escravidão e formaram quilombos ou pequenos vilarejos pelo Vale. Nota-se então uma grande presença da cultura negra e indígena na região junto com a religiosidade também marcante no Vale.

Por último e para fechar esta maravilhosa canção ele canta o seu amor pelo Vale num refrão que é hoje o mais cantado nas festas e reuniões do povo deste lugar:

"Vale que vale cantar
 Vale que vale viver
 Vale do Jequitinhonha
 Vale eu amo você"

Dizer o quê deste refrão? Para quem nasceu no Vale do Jequitinhonha ele é auto-explicativo, mas para aqueles que nasceram em outros lugares e veio parar aqui eu digo que este refrão demonstra o carinho e consideração que todas as pessoas que vivem neste lugar ou que nasceram e não moram mais lá e também aqueles que não estão nestas duas hipóteses principais, mas que de alguma maneira admiram este lugar.

Foi um grande presente que o Verono nos deixou e quem ainda não conhece esta canção ou simplesmente não cansa de ouvir. Estou disponibilizando o vídeo abaixo de um dos shows que Verono fez cantando esta música. Ouça, duvido que não vão gostar...